Discriminação imobiliária no Japão

O número de estrangeiros que vivem hoje no Japão é recorde — 3,41 milhões —, mas eles estão sujeitos a sofrer discriminação ao procurar um lugar para viver. O governo chamou a atenção das imobiliárias para a gravidade do problema, mas ainda há proprietários de imóveis que se recusam a aceitar estrangeiros.

Em pesquisa realizada por um site particular de informações sobre moradias, cerca de 40% dos estrangeiros entrevistados apontaram discriminação ou tratamento diferenciado na apresentação de imóveis ou no procedimento contratual — ambos atribuídos unicamente à própria nacionalidade.

Postagem no Instagram viraliza

Joshua Thomson, cidadão britânico que, nascido e crescido no Japão, é fluente em japonês, postou um vídeo no qual relata a experiência de ter sido rejeitado por uma imobiliária.

Thomson considerou muito frustrante ouvir repetidas vezes de um funcionário de uma imobiliária: “Não aceitamos pedidos de locação feitos por estrangeiros”. Em seu relato, ele ressalvou, porém, que pretendia dar a volta por cima, acrescentando uma pitada de humor à história.

O vídeo foi visualizado mais de 2,7 milhões de vezes e muitas pessoas comentaram ter tido experiências semelhantes.

Um dos comentários dizia: “Tenho visto permanente no Japão e trabalho para uma grande empresa japonesa, mas a minha solicitação foi rejeitada”. Outro afirmou: “Moro no Japão há mais de 20 anos, e sempre me deparo com rejeição”.

Nem mesmo com fiador japonês

Também comentou o vídeo um espanhol de 36 anos que, estando no Japão havia seis anos, trabalhava como professor universitário. Em janeiro de 2023, ele enviou um e-mail a uma imobiliária no qual pedia para conhecer um apartamento na província de Hyogo, da região oeste do país.

Recebeu em resposta a explicação de que estrangeiros não podem morar no imóvel, mesmo que tenham fiador japonês.

Espanhol que enfrentou discriminação imobiliária no Japão

“Fiquei pasmo”, contou. “Não fui consultado sobre renda anual ou trabalho. Desconhecem inteiramente a minha pessoa. Percebo que fui rejeitado unicamente pela nacionalidade.”

Ele entrou em contato com a delegacia regional do Ministério da Justiça para que o caso fosse investigado, mas desistiu de apresentar queixa ao ser informado de que o órgão nada poderia fazer.

Comentou: “É lamentável que alguns proprietários de imóveis se recusem a alugar para estrangeiros — e é decepcionante a falta de ação do governo”.

Imobiliária: “Esta é a realidade do Japão.”

A NHK entrou em contato com a imobiliária a respeito do incidente. O gerente da filial da empresa disse não haver nenhuma intenção de rejeitar estrangeiros.

Alegou que o funcionário que respondeu ao e-mail original não estava mais disponível e que o incidente teria ocorrido em um período de sobrecarga de trabalho, podendo não ter passado de um mal-entendido.

O gerente acrescentou: “Na verdade, porém, algumas outras empresas de administração imobiliária não trabalham com inquilinos estrangeiros. Penso ser esta a realidade do Japão”.

Receios entre proprietários e imobiliárias

Por trás da relutância de proprietários de imóveis e de imobiliárias em alugar para estrangeiros estão receios de que ocorram problemas.

Em pesquisa realizada por uma associação do setor, em 2022, 52,7% dos proprietários de imóveis entrevistados mencionaram problemas ocorridos em casos de locação para estrangeiros. Os problemas mais comuns foram descumprimento de regras de descarte de lixo e queixas de alto ruído pela vizinhança.

Especialista: O alarmismo se espalha mesmo entre quem não tenha tido problemas

O diretor da Associação Japonesa de Administração de Imóveis conhece profundamente o mercado de aluguel para estrangeiros. Ogino Masao destaca a existência de muito diz que diz negativo sobre o aluguel de moradias para estrangeiros. Ele explica que, ao tomar conhecimento de problemas ocorridos com terceiros, vários indivíduos ou empresas passam a se inquietar mesmo que nunca tenham vivenciado na prática problema algum.

Ogino Masao dirige a Associação Japonesa de Administração de Imóveis

Imóveis vazios não trazem benefícios a ninguém

Um proprietário de imóveis em três províncias, incluindo a de Shizuoka, da região central do Japão, criticou as condições nas quais inquilinos do Sudeste Asiático entregaram, no final do ano passado, a quitinete que ele lhes havia alugado.

Afirmou que o imóvel foi devolvido com extensos danos, em um estado que lhe deixaria bastante atarefado.

Ele estima que, para consertar os estragos, tenha de desembolsar 650 mil ienes — cerca de 4.180 dólares.

O proprietário diz que o custo dos consertos tornará deficitária a locação

O proprietário da quitinete, que se identifica on-line como Sorim Uha, decidiu passar a explicar detalhadamente a inquilinos estrangeiros pontos importantes a observar após a mudança para a moradia. A sua expectativa é de que adotem um “estilo de vida japonês”.

Ele planeja fornecer aos inquilinos material de limpeza e inseticidas, ensinando-lhes o modo de usar.

Pretende continuar a alugar para estrangeiros.

“Se pudermos acolher estrangeiros em boas condições, o período de vacância será encurtado e os negócios poderão ter continuidade.”

Soluções mutuamente vantajosas

Yiqun Gong, de uma firma de Tóquio que administra um site de orientação habitacional, é de Xangai. Ela vive no Japão desde os 5 anos de idade e também enfrentou dificuldades para encontrar moraria.

Baseada na própria experiência, Gong criou um site de busca de imobiliárias que atendam pessoas com dificuldades de encontrar moradia, incluindo estrangeiros. Cerca de 4.400 imobiliárias trabalham com clientes estrangeiros, principalmente em áreas urbanas.

Yiqun Gong é responsável pelo Friendly Door — site de busca voltado para indivíduos socialmente vulneráveis

Cadastrada no site, uma imobiliária de Kawasaki, cidade da província de Kanagawa, tem feito uma ampla contratação de estrangeiros, com a convicção de que eles venham a agregar valor ao negócio.

Gong esteve na empresa.

Um funcionário chinês lhe ressaltou que a imobiliária enfrenta menos problemas com estrangeiros por explicar detalhes importantes no próprio idioma dos clientes.

Yiqun Gong diante do gerente da imobiliária e de um funcionário chinês (dir.)

Um funcionário explicou que, na assinatura do contrato, explica ao novo inquilino vários detalhes, como recolhimento de lixo, a regra de não usar sapatos no interior da moradia e normas de comportamento na sociedade japonesa.

Yiqun Gong diz esperar que a rede de integração se espalhe por todo o país e ajude estrangeiros no Japão a encontrar um lugar para morar.

“Ao mesmo tempo em que atenuamos os riscos, aproveitamos resolutamente as oportunidades de negócios. Acredito que seja uma situação vantajosa para todos”, conclui ela.

“Se as imobiliárias no Japão se tornarem acolhedoras para todos, incluindo estrangeiros, os nossos serviços se tornarão desnecessários e é este o principal objetivo.”

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