O Brasil desembarcou pela primeira vez em uma Copa apostando num técnico como protagonista — e não em um jogador fora de série com calção, camisa e chuteira. Até Vinicius Junior, autor de quatro gols na fase de grupos, era coadjuvante. O craque do time em 2026 usava terno, sapato social, é penta da Champions League com Milan e Real Madrid; campeão nacional nas cinco principais ligas da Europa — Alemão, Espanhol, Francês, Italiano e Inglês — mas fez um trabalho ruim no torneio desconhecido por ele. Aos 67 anos, Carlo Ancelotti havia disputado o Mundial como meia em 1986 e em 1990, e no papel de assistente de Arrigo Sacchi em 1994. Fracassou na primeira vez como técnico na eliminação contra a Noruega por 2 x 1.
Os gols do carrasco Erling Haaland são resultado da insegurança tática do italiano. As convicções foram sendo minadas desde a apresentação do Brasil em 27 de maio, na Granja Comary, em Teresópolis, na Região Serrana do Rio. Ele tinha uma ideia clara: um 4-4-2 com os volantes Casemiro e Bruno Guimarães e quatro atacantes: Luiz Henrique, Raphinha, Vinicius Junior e Matheus Cunha. Os amistosos contra o Panamá e o Egito o fizeram mudar.
O craque do Brasil na Copa erra pela primeira vez na escalação contra o Marrocos na estreia. Bugada, a Seleção inicia o torneio com Roger Ibañez de lateral-direito, Lucas Paquetá no meio de campo em vez de Danilo Santos, do Botafogo, que pedia passagem desde os amistosos contra a França e a Croácia, e o centroavante Igor Thiago e não Matheus Cunha. Em vez de proteger a defesa, Casemiro fez papel de “meia” e só não testemunhamos um desastre completo no primeiro tempo porque o talento de Vinicius Junior impediu.
A vitória sobre o frágil Haiti indicou que o craque do time havia encontrado a formação ideal. Ancelotti devolveu Matheus Cunha ao time e sacou Ibañez para começar com Danilo na lateral-direita. Encerrou a sequência de seis jogos consecutivos sofrendo gol, mas a defesa sofria. Alisson trabalhou muito naquela noite na Filadélfia na qual Raphinha se machucou.
O goleiro também teve muito trabalho em Miami, quando Ancelotti viu Rayan dar conta de substituir Raphinha na direita. Derrotou a fraca Escócia por 3 x 0, mas novamente viu a defesa vacilar em vários trechos da partida e exigir muito de Alisson sob as traves.
A minha impressão no início da fase eliminatória era de que o Brasil estava no fio da navalha. Bastaria enfrentar um adversário minimamente organizado, como Marrocos, para o risco da queda precoce se consumar. Ancelotti repetiu a formação inicial pela primeira vez contra o Japão. A mesma da vitória contra a Escócia. Danilo falhou no gol do Japão. Lucas Paquetá saiu lesionado no intervalo. Endrick entrou bem. Casemiro empatou o jogo. Gabriel Martinelli saiu do banco para decretar a virada dificílima contra o ingênuo Japão.
Bastaram quatro jogos para a Noruega decifrar o Brasil. Notou que a melhor defesa contra o time do craque Ancelotti era o ataque. Sobretudo porque dispõe do que a Seleção não tem faz tempo: um camisa 9 como Haaland do Manchester City e um 10 do naipe de Odegaard, um dos maestros do Arsenal. Ambos diferenciaram os vikings da Seleção nas oitavas.
Numa inversão de papéis inaceitável, o Brasil entregou a bola para a Noruega. Comportou-se como seleção pequena, à espera de uma bola para contra-atacar em transição rápida apostando em um passe de Bruno Guimarães, até então com quatro assistências, no talento de Vinicius Junior e na velocidade de Martinelli, o eleito para a vaga de Paquetá.
O início do jogo lembrou aquele da estreia contra Marrocos. Dominado, o Brasil sofreu gol. Foi salvo pelo impedimento automático. Quando se leva um susto desse, a ordem é aproveitar a primeira oportunidade. Vini tentou, mas viu o goleiro Nyland salvar com o joelho. Bem no jogo, Martinelli acertou passe preciso para Matheus Cunha e o camisa 9 foi derrubado dentro da área. Salvo pelo VAR, o juiz deu pênalti e ali começava a eliminação.
Em pouco mais de um ano de trabalho, Ancelotti nunca deixou claro quem é o cobrador de pênalti da Seleção. Houve ruídos dentro de campo em dois amistosos. Contra a Tunísia, Estêvão bateu, acertou, estava em campo quando houve uma segunda infração e o italiano mandou Lucas Paquetá bater. O meia errou e o jogo terminou 1 x 1. O técnico justificou que a ideia foi tirar o peso das costas de Estêvão. Contra a Croácia, Endrick sofreu pênalti, pegou a bola para bater e Ancelotti mandou Igor Thiago cobrar. Na entrevista, disse que o batedor seria Matheus Cunha caso estivesse dentro das quatro linhas naquela partida.
Essa é uma das contradições. Levantamento do blog aponta que o Brasil fez 12 gols de pênalti no ciclo iniciado em 2023 até a Copa de 2026. Lucas Paquetá, Raphinha, Vinicius Junior, Neymar, Estêvão e Igor Thiago converteram. Dos seis, somente Vinicius Junior estava em campo naquele momento. Matheus Cunha, indicado para bater contra a Croácia se fosse necessário, também. Surpreendentemente, a escolha recaiu sobre Bruno Guimarães.
O volante colecionava nove cobranças na carreira entre tempo regulamentar e decisões por pênaltis. Duas pelo Athletico-PR, duas com a camisa do Lyon e cinco pelo Newcastle. Tinha apenas um erro contra o Bournemouth neste ano pela Copa da Inglaterra. Ele bateu mal contra a Noruega e viu o goleiro Nyland (1,92m) se agigantar ainda mais na partida.
O comportamento do Brasil não mudou. Em alguns trechos do jogo, a posse de bola era inferior a 30%. A Noruega rondava a área. Sem um “Odegaard” para chamar de seu no meio de campo, a Seleção não controlava o jogo. Carente de um “Haaland” no ataque, viu o garoto Endrick entrar sozinho na cara de Nyland depois de uma assistência milimétrica de Vinicius Junior e desperdiçar a melhor oportunidade verde-amarela na partida.
O padrão de excelência do Haaland não permite erros como o de Endrick. Houve um tempo em que o Brasil tinha caras como ele. Romário e Ronaldo se fingiam de mortos. Quando menos se esperava, decidiam jogos como esse. Principalmente, quando o técnico adversário errava. Alterações equivocadas de Ancelotti bugaram novamente o Brasil. As trocas de Rayan por Danilo Santos e de Martinelli por Neymar encorajaram a Noruega. O Brasil passou a ter Vinicius Junior, Neymar e Endrick na frente. Três a menos na marcação! Casemiro e Bruno Guimarães não entregavam mais o fôlego renovado por Danilo Santos.
O Brasil tinha naquele momento: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Bruno Guimarães, Casemiro e Danilo Santos; Endrick, Neymar e Vinicius Junior.
Tinha tudo para dar errado. Deu justamente no setor em que Rayan se desdobrava auxiliando Danilo para deter Nusa no primeiro tempo e controlar Andreas Schjelderup no segundo tempo. O ponta-esquerda de 22 anos do Benfica virou a peça-chave do jogo. Foi dele o cruzamento na medida para Haaland superar a disputa com Gabriel Magalhães e abrir o placar. Foi dele também o passe para o segundo, aproveitando falhas de Danilo e Gabriel Magalhães. O centroavante recebe e chuta cruzado no canto esquerdo de Alisson.
Eliminado pela sexta edição consecutiva por uma seleção europeia, o Brasil ainda teve tempo de ver Neymar protagonizar as últimas cenas lamentáveis em quatro participações na Copa. Peitou o goleiro Nyland, converteu o pênalti, arrumou confusão com Odegaard e tomou cartão amarelo nos 23 minutos em campo. Estava consumado o fracasso do Brasil.
França, Inglaterra, Argentina e até a modesta Noruega confiaram a Copa aos seus melhores jogadores. O Brasil fez diferente. Entregou o destino da Seleção ao maior treinador do mundo. Pela primeira vez, o craque vestia terno, gravata e sapato social em vez de chuteiras. E justamente ele falhou quando o Mundial começou de verdade.
Fonte: Correio Braziliense
Foto: Odd Andersen

