Cientistas da UnB e da RBC descobrem nova perereca endêmica no Cerrado

Considerada uma “guerreira” do bioma, espécie recebe nome em homenagem à personagem da obra Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Muita gente acha que encontrar uma nova espécie é difícil. No entanto, sabemos ainda pouco sobre a biodiversidade, e sempre que uma região é estudada com maior atenção, novos habitats são explorados, e espécies ainda não descritas podem aparecer. Foi o que ocorreu com a Nyctimantis diadorim, recentemente descrita para o Cerrado e pertencente a um grupo conhecido como “pererecas-de-capacete” por terem crânios fortemente ossificados, passando a ser a primeira espécie do gênero a ocorrer no bioma.

Envolvido diretamente com a descoberta, o professor e pesquisador da Rede Biota Cerrado (RBC) Reuber Brandão fala ao Correio sobre o feito. Bacharel em biologia e doutor em ecologia pela Universidade de Brasília (UnB), é professor do Departamento de Engenharia Florestal na instituição e coordena o Laboratório de Fauna e Unidades de Conservação. É especialista em taxonomia, conservação e ecologia da herpetofauna do Cerrado, e trabalha em prol da conservação do bioma.

Como você explica essa descoberta?

Reuber Brandão coordenou a equipe que descobriu a Nyctimatic Diadorim no Cerrado
Reuber Brandão coordenou a equipe que descobriu a Nyctimatic Diadorim no Cerrado(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Nyctimantis diadorim foi observada durante estudos de campo no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Minas Gerais. Quando investigadores vão a campo, buscam registrar todas as espécies presentes em um determinado ambiente. De modo geral, quando vamos a campo, avaliamos que ambientes existem no lugar, já que diferentes espécies podem ocorrer em diferentes ecossistemas.

Qual a importância dessas descobertas para museus e coleções científicas?

Quando um indivíduo de interesse é encontrado, por exemplo, essa perereca que estudamos, esse exemplar é coletado para estudos mais detalhados em laboratórios, museus ou coleções científicas. Museus e coleções científicas são essenciais para o estudo da biodiversidade! Sem essas instituições, todo o conhecimento que temos sobre as espécies do mundo se perderia, visto que precisamos saber a que organismo um determinado nome científico se refere. Se não temos museus e coleções científicas, onde cada nome científico está “ancorado” a um tipo exemplar, todos os nomes científicos deixariam de fazer sentido em poucos anos. Por isso, coletar plantas e animais por pesquisadores em estudos de biodiversidade e de conservação é essencial para o incremento do conhecimento biológico e para promover a conservação da natureza e a proteção da biodiversidade.

Qual a rotina para se verificar a confirmação de uma nova espécie?

Descrever novas espécies é uma atividade comum para os taxonomistas, profissionais treinados nesse tipo de estudo e na necessidade de cuidado com o acervo de museus e coleções científicas: quanto maior o acervo, maior é o patrimônio de conhecimento que ele representa e maior é sua importância. Quando um exemplar chega a uma coleção científica, ele é cuidadosamente comparado com exemplares já conhecidos pela equipe de especialistas. A partir dessa comparação e da adição de dados complementares, incluindo moleculares, é possível saber se aquele animal é ou não uma espécie distinta e com quais ela é aparentada. No caso dos anuros (sapos, rãs e pererecas), é comum também usarmos o canto e o girino como informação complementar para determinar espécies novas. 

  • Equipe: Guia Jau (esquerda), Guilherme Santoro, Reuber Brandão e Guilherme Álvares (direita)
  • Equipe: Guia Jau (esquerda), Guilherme Santoro, Reuber Brandão e Guilherme Álvares (direita)Reuber Brandão

Como são “batizadas” as novas espécies e como foi escolhido o nome da Nyctimantis diadorim nesta alusão a uma espécie guerreira do sertão?

No caso da Nyctimantis diadorim, sabíamos que se tratava de uma perereca-de-capacete do gênero Nyctimantis, que agora possui apenas oito espécies conhecidas. O nome da espécie, diadorim, é uma homenagem à personagem Diadorim, do majestoso livro Grande Sertão: Veredas, do grande escritor João Guimarães Rosa. No livro, Diadorim é uma guerreira que, na busca por vingança pelo pai assassinado, percorre vasta região do Cerrado em Minas Gerais, na Bahia e em Goiás, no encalço do bando inimigo. Nessa complexa história de amor e tragédia, as belezas naturais do Cerrado são lindamente descritas, inspirando a criação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, uma das joias da conservação do nosso bioma. Tal como a Diadorim do livro, a Nyctimantis diadorim também é uma guerreira elusiva, que luta pela sobrevivência em uma paisagem repleta de belezas e de perigos.

Descreva as características de corpo e forma da Nyctimantis diadorim e explique a singularidade dessa espécie.

Com seus olhos castanhos ou vermelho-escuros, sua coloração castanha, o formato de sua cabeça, seu tipo de crânio e belos padrões de colorido, a Nyctimantis diadorim é conhecida apenas para o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, mostrando que nosso conhecimento dos anfíbios do Cerrado ainda está longe de ser devidamente estudada. Como essa espécie é um endemismo muito restrito do bioma, saber que mais de 50% do Cerrado já foi desmatado significa que muito provavelmente várias espécies foram extintas antes terem sido descritas (“conhecidas pela ciência”). Isso significa que perdemos a possibilidade de estudar o potencial de uso das secreções de pele desses anfíbios, sua evolução, seu papel nos ecossistemas. E isso significa que todos perdemos.

Fonte: Correio Braziliense

Foto: Marcelo Ferreira  

You May Also Like

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *